Seguir
Futuro em Movimento

O carro que ainda não existe

Por que as montadoras gastam milhões em carros conceito que nunca vão vender?

Por Marlon Rosa · 16 de outubro de 2026 · 5 min de leitura
Carro esportivo conceito em garagem escura com luz laranja e azulIMAGEM GERADA POR IA

Todo salão do automóvel tem aquele carro que para o público: baixo, largo, com faróis que parecem de outro planeta e um interior que mais lembra uma nave. Quase sempre é um carro conceito. E quase sempre ele nunca vai chegar a uma concessionária.

Então por que as montadoras continuam fazendo isso — e gastando tanto?

Um protótipo de ideias, não de vendas

Carro conceito é um protótipo de ideias. Ele existe para testar design, tecnologia e a reação do público antes que a marca coloque bilhões numa linha de produção. Não tem preço de etiqueta porque não foi feito para ser vendido.

E não é barato. Em reportagem do jornal canadense The Globe and Mail, um designer da Mercedes-Benz disse que o custo de um conceito pode chegar a milhões de euros. O diretor de design da BMW, Adrian van Hooydonk, preferiu não dar número, mas resumiu: é "muito mais caro do que comprar um Série 7".

Designer esculpindo um modelo de argila de carro conceito em estúdioIMAGEM GERADA POR IA
Modelo em argila: etapa clássica do design de um conceito.

1938: onde tudo começou

O Buick Y-Job, de 1938, é considerado o primeiro carro conceito da história. Foi desenhado por Harley Earl, o chefe de estilo da General Motors — que, segundo o Audrain Automobile Museum, usava o carro no dia a dia.

Harley Earl ao lado do Buick Y-Job conversível, foto em preto e branco
Harley Earl e o Buick Y-Job. Foto: General Motors / acervo histórico.

O Y-Job estreou soluções que só virariam comuns décadas depois:

  • Faróis escondidos
  • Maçanetas embutidas na carroceria
  • Vidros com acionamento elétrico
  • Direção assistida, que outros carros só ofereceriam nos anos 1950

Motivo 1: um laboratório sobre rodas

Muitos conceitos existem para provar que uma tecnologia funciona fora do papel. O melhor exemplo recente é o Mercedes-Benz Vision EQXX, um elétrico criado para levar a eficiência ao limite.

1.008 km

Em 5 de abril de 2022, o Vision EQXX saiu de Sindelfingen, na Alemanha, e chegou a Cassis, na França, com uma única carga — com consumo médio de 8,7 kWh a cada 100 km, segundo a Mercedes-Benz.

O carro não foi feito para venda, mas o que a marca aprende com ele — aerodinâmica, gestão térmica da bateria, software de eficiência — acaba indo para os carros de série.

Motivo 2: o termômetro do público

Outros conceitos servem para medir a temperatura. Se o público ama, o projeto ganha força dentro da empresa.

Foi o caso do Hyundai Concept 45, apresentado no Salão de Frankfurt de 2019. Inspirado no Pony de 1974 — o primeiro carro desenvolvido pela própria Hyundai —, ele virou a base do Ioniq 5, revelado em 2021 com um desenho muito próximo ao do conceito.

Todo carro que você ama já foi um rabisco num estúdio.

Do rabisco à rua

Esboços a lápis e marcador de carros conceito sobre uma pranchetaIMAGEM GERADA POR IA
Todo projeto começa no papel.

Entre o esboço e a concessionária, o caminho passa por desenhos, modelos de argila em escala real, túnel de vento e muito teste. O conceito é a parte desse processo que a marca decide mostrar para o mundo.

Da próxima vez que você vir um carro "impossível" num salão, olhe com atenção: alguma coisa ali pode estar na sua garagem daqui a alguns anos.

E você: qual conceito queria ver nas ruas? Conta pra gente no Instagram.

Leia também